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Envelhecer com dignidade: cidades inteligentes e envelhecimento ativo

Por Pedro Henrique Gomes, jornalista da Mirador Atuarial.

De acordo com dados do IBGE, em 2030 o número absoluto de brasileiros com 60 anos ou mais vai ultrapassar o de crianças de 0 a 14 anos. Ainda segundo o IBGE, em 2016 o Brasil contabilizava 3.458.279 idosos com idade superior a 80 anos. Para 2060, é esperado que o número da população idosa com mais de 80 anos alcance 19 milhões[1].

Como vemos, o Brasil está em plena transição de sua estrutura etária. Os países de economia avançada já passaram por essa transição e, muitos deles, estavam preparados para a inversão da pirâmide etária. Em vários destes países, os níveis de desigualdade social já eram menores, a pobreza já havia sido drasticamente reduzida, os serviços públicos forneciam mobilidade e segurança e, mesmo assim, alguns enfrentam crises econômicas. O Brasil, no entanto, onde o processo está em aceleração, sequer construiu este arcabouço estrutural. Nossos desafios são certamente maiores.

Aqui, falar em reforma nas regras da previdência social, que pontualmente se faz necessária, se pensada estritamente de um ponto de vista econômico, não resolverá a questão do envelhecimento populacional se não vier acompanhada de um conjunto de reformas estruturantes: as pessoas almejam qualidade de vida. Na juventude, é um desejo, uma ambição; na velhice, uma necessidade.

Nestes tristes trópicos, sucessivos governos se passaram desde a redemocratização, mas nenhum deles legou ao Brasil as mudanças estruturais necessárias para o seu desenvolvimento. Acontece que, como dizem, o longo prazo chegou.

As transformações demográficas, que são claras, todavia não explicam todo o processo: a relação entre a rapidez do envelhecimento populacional e a diminuição das taxas de natalidade é apenas parte de um todo mais amplo. Para entendermos o fenômeno, vale exercitar a imaginação (e a empatia).

Num cenário em que a expectiva de vida aumenta globalmente, como pensar em cidades que sejam adaptadas aos idosos, que se desenvolvam de modo a considerá-los em cada uma de suas transformações mais ou menos bruscas. Ora, uma cidade pensada para a terceira idade é uma cidade pensada para todos, pois os mais jovens possuem maior mobilidade e capacidade adaptativa diante dos fluxos e refluxos tecnológicos. O que envolve uma cidade amigável aos idosos, além de políticas públicas de saúde, assistência social e Previdência? Infraestrutura acessível, atenção médico-hospitalar, participação na vida cívica, segurança, acesso democrático a educação e a cultura, em suma, um sistema integrado de sociabilidade e proteção social.

Tecnologia para idosos?

O cenário era futurista: no cinema, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Minority Report, Blade Runner, Robocoop, O Homem Bicentenário; na literatura, Eu, Robô, Admirável Mundo Novo, 1984, Neuromancer. A penetração de um imaginário futurista na cultura popular já é muito aceito como possível sob vários aspectos. A IA (Inteligência Artificial), a bem dizer, já faz parte do dia a dia de grande parte da população mundial - embora ainda muita gente não possua acesso a tecnologias mais simples, como sistema de saneamento básico e eletricidade, por exemplo.

Hoje, a IA já anuncia programas de IA capazes de criar programas de IA que, autodidatas, poderão superar largamente a inteligência da máquina que a criou[2] (e, claro, dos humanos que as tornaram possíveis). Sistemas com tal capacidade criativa devem poder, sem muita dificuldade, facilitar a mobilidade dos mais velhos. Ora, não estamos falando simplesmente em acesso preferencial ao caixa do banco, mas da concepção e do desenvolvimento de sistemas inteligentes (no transporte público, na mobilidade urbana etc) que estejam aptos a manter os idosos integrados as atividades que movem as cidades e a não isolá-los da convivência social.

A experiência de Manchester, no Reino Unido, busca quebrar a imagem da velhice como dependência de terceiros. Isso é possível baseado em uma mudança não somente no sistema de seguridade social, mas baseia-se numa transformação na “valorização dos conhecimentos e das experiências dos mais velhos e da sua capacidade de consumir, de investir, de gerar emprego, de estimular a economia[3]”. Com todos os aparelhos e dispositivos disponíveis hoje e mais os que ainda serão criados, tais redes de apoio e integração social precisam atentar, também, para as dimensões da relação entre comunicação e informação. Será mesmo que, com a suposta “democratização do acesso à informação” que o advento da internet propiciou, estamos nos entendendo melhor num mundo globalizado?

Informar não é comunicar

O teórico da comunicação Dominique Wolton[4] argumentou que, na medida em que produzimos informações abundantemente, não estamos aumentando nossa capacidade de comunicação, isto é, de entendimento mútuo, pois a comunicação pressupõe uma relação, uma mediação. É preciso, portanto, repensar as estratégias de comunicação e não simplesmente produzir informações, pois a segunda não garante a primeira. Este é o paradoxo da convivência no mundo contemporâneo. Para que as pessoas idosas se sintam incluídas e não excluídas, que possam participar das decisões que lhes dizem respeito, que tenham vida externa (coletiva) e não somente interna (individual), para estas e outras coisas as tecnologias baseadas em inteligência artificial podem ser muito úteis e inclusivas. Mas é necessário saber os caminhos que elas podem tomar, conjugar os saberes técnicos aos comunicacionais, entender os impactos que podem ocasionar na vida das pessoas.

Uma sociedade mais próspera, cujos habitantes vivem cada vez mais, para além de uma aposentadoria financeiramente garantida, pressupõe que nos preocupemos com estas questões.

 


[1] Disponível em: http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2016/10/em-2060-brasil-tera-19-milhoes-com-mais-de-80-anos

[2] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/17/tecnologia/1508235763_015093.html

[3] Ver http://mundoprateado.com/manchester-uma-cidade-amiga-do-idoso/

[4] Ver Informar não é comunicar, de Dominique Wolton, Ed. Sulina, 2010.